Nós éramos melhores amigas; dos tempos das brincadeiras de casinha aos esmaltes e batons, quando nossas vidas tomaram rumos diferentes. Para selar esta amizade fizemos um pacto, o qual determinava o nosso reencontro dez anos depois. Coisas de adolescentes.
Uma década se passou. O dia esperado chegou. Depois de todo esse tempo eu ainda guardava essa data na memória. Fui ao local combinado: o antigo colégio onde estudávamos. Ficava em outra cidade, mas tudo já estava programado para a viagem e, além disso, eram apenas alguns quilômetros. Não mantínhamos nenhum contato havia anos, entretanto tive a esperança de encontrar uma mínima gota de amizade entre nós; afinal, não conheci casal de amigas mais companheiras.
O tempo passava lento. Já esperava a mais de uma hora e nada. A escola estava diferente, mais moderna. Não era mais o ambiente familiar e aconchegante de que eu lembrava; não reconhecia ninguém. Olhei o relógio. Será que ela esqueceu? Já estava quase desistindo. Foi, então, que eu a vi. Laís estava muito diferente, mas com o mesmo jeito destrambelhado e alegre de sempre.
– Oi! - eu disse. Mas ela passou por mim como uma flecha. Fiquei confusa. Não me reconheceu? Ela foi até uma sala e trouxe de lá uma garota, parecida com ela. Aproximei-me das duas.
- Tu não se lembras de mim?
Ela fitou-me por uns segundos, pensativa. Disse, finalmente:
- Beatriz!!! Quanto tempo que eu não te vejo. Quase não te reconheço!!
- Meu nome é Bianca. – Nossa, ela não lembrava nem o meu nome. Perguntei:
- E quem é essa mocinha?
- Ahh.. Essa é a minha filha Larissa.
Contei a ela o motivo de minha visita. Ela esquecera o encontro completamente. Na verdade, foi tudo uma coincidência. Por sorte, ela matriculara a filha na mesma escola em que estudávamos. Tentei dialogar, repassar as conversas atrasadas. Porém, ela parecia não dar muita importância. Então, como o sol triunfante que aparece em meio às nuvens de um dia nublado, eu o avistei.
Ricardo estava com a mesma feição jovial, mas com uma pitada de maturidade. O tempo só fez bem a esse homem. Meu coração bateu forte, minha face enrubesceu e um sorriso nasceu discreto.
- Ainda não acredito que ainda o amo – eu disse. Laís fez uma careta de desaprovação. Ela sabe de toda a nossa história.
Apaixonei-me por ele ainda jovem, com treze anos. No início não era nada significante. Mas, com o passar do tempo, esse sentimento cresceu exponencialmente. Uma paixão avassaladora, platônica. Para minha felicidade, ele se apaixonou por mim. Vivemos juntos os momentos mais felizes da minha vida. Todos inesquecíveis. Porém, ele me deixou; sem dar desculpas, motivos. Laís nunca aprovou meu amor por ele. Sempre achei que alguém estaria por trás disso, mas quem? Talvez nunca saiba. Mesmo casada, as lembranças desse amor adolescente vinham à tona, vez ou outra. Foi uma coisa que eu consegui superar, mas nunca me conformei.
Ele caminhou em nossa direção, sorrindo. Passou por mim, beijou Laís e tomou a menina no colo. O que?! Laís me olhou, envergonhada. Disse:
- Esse é meu esposo Ricardo. – ele não me reconheceu.
- Prazer em conhecê-lo. – eu disse, virando em direção à saída antes que as lágrimas derramassem. Não acredito que ela fez isso comigo!! Voltei para casa decepcionada. Agora estou aqui, imersa em meus pensamentos.
Laís presenciou todo o meu sofrimento, minha angústia, minha depressão. Nunca imaginei que ela seria capaz de fazer isso. A garota tinha em torno de oito anos, o que significa que eles ficaram juntos logo após a minha partida. Agora, entendo o motivo pelo qual ela nunca aprovara meu relacionamento com Ricardo. Ela o amava. Mas isso não justifica o que ela fez.
Lembrei dos momentos que passamos juntas: bonecas, pique-esconde, assinaturas na agenda, armações, fugas para a festa. Ela realmente era minha amiga? Dizem que amizade verdadeira nunca morre. Morreria depois de dez anos? Talvez. Eu tinha esperança, mas ela morreu com o que restou de nossa amizade, naquele corredor de escola. Isso se existiu amizade algum dia, já que é um sentimento que só se concretiza quando é recíproco.
Quando eu a vi, senti toda a nossa amizade vir à tona. Senti vontade de abraçá-la, fazer o nosso “toque”, usar nossas gírias e contar as novidades. Nada foi como antes. Mas, por um instante, senti como se ainda fosse.
Shinning Star ✨
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