segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Último pôr-do-sol

Vento, areia, cheiro de mar. Viemos ver o pôr-do-sol na beira da praia, como fazemos todos os domingos. Mas esse vai ser diferente. Vai ter um gosto de saudade e lágrimas - salgadas como a água do mar. Sentamos na areia como sempre; ele por trás de mim, com os braços quentes me envolvendo em um abraço protetor. Céu alaranjado, com nuvens tendendo do rosa ao dourado. O sol está se despedindo de maneira espetacular. Quase esqueço do que eu tinha para falar. Tirá-lo da minha vida talvez seja uma das coisas mais difíceis que eu possa vir a fazer. Levanto os olhos e vejo andorinhas no céu. Imagino-o voando junto com elas, para longe de mim. Dói aqui dentro. Imagino minhas manhãs começando com o som do despertador e não com o celular tocando, com ele me dizendo bom dia, amor. Me vejo cheirando minhas roupas antes de colocá-las para lavar e não sentindo o cheiro dele nelas. Sem o gosto do beijo, sem o abraço macio, sem o cheiro dos cabelos. Fico imaginando os "sem's" por uns minutos dolorosos e vejo uma vida futuramente vazia. Mas isso não vai me fazer desistir. Começo a falar, e já soluço antes mesmo de terminar. Ele não entende o porquê de tudo isso. Talvez nem eu entenda. Duas pessoas que se amam não podem se separar por coisas pequenas. Isso parece pequeno, mas talvez não seja. Certas coisas parecem absurdas agora, mas depois fazem muito sentido. Levanto da areia e as lágrimas mal me permitem olhar teus olhos, também cheios delas. Um último abraço, um último beijo, um último eu te amo, um último pôr-do-sol. Caminho para longe de você como quem caminha para a beira de um precipício de olhos fechados - você não quer continuar andando, sabe que vai cair a qualquer momento e que logo não sentirá mais nada. Eu te amo, nunca vou desistir de você!, ele grita às minhas costas, enquanto eu enterro meus pés pesados na areia para cada vez mais distante. E sabe, eu não quero que ele desista de mim nunca, mesmo; porque eu nunca vou desistir dele.

Shinning Star 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Almas perfumadas

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta, ou de sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça, lambuzando o queixo de sorvete, melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro e a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver. Tem gente que tem cheiro de colo de Deus, de banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo, sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel. Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria, recebendo um buquê de carinhos, abraçando um filhote de urso panda, tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração. Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa, do brinquedo que a gente não largava, do acalanto que o silêncio canta, de passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo, corre em outras veias, pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está conosco, juntinho ao nosso lado e a gente ri grande que nem menino arteiro. Tem gente, como você, que nem percebe como tem a alma perfumada! E que esse perfume é dom de Deus.

Ana Cláudia Saldanha Jácomo