quinta-feira, 27 de setembro de 2012

He was a boy, she was a girl

Ela ajeitou a cabeça no travesseiro, desligou a luz e começou a pensar no que iria dizer a ele. Os pensamentos fluíam desorganizados e indecisos.

"Sabe, acho que não é bem isso que eu quero. Sei lá. Nós pensamos de maneira totalmente diferente. Você tem cada ideia ridícula. Às vezes parece criança, é irresponsável, inconsequente... E todo implicante com esse teu ciúme. Ele é só meu amigo! Sem contar que você nem me escreveu uma cartinha quando completamos aniversário juntos, nem um cartão sequer. Tem que fazer alguma coisa especial além de dar presente. Isso é importante, e eu não esqueci! E tipo... É estressante pra mim ter que me preocupar se você está aprontando ou não. Eu não deveria, mas me preocupo. Não dá mais pra confiar em ninguém hoje em dia, me desculpa. E eu tenho mais o que fazer do que ficar me estressando, enchendo minha cabeça de caraminholas. E você fica perguntando onde eu fui, com quem, porque, como, que horas. Não precisa disso, tá bom? E quando você arrota por aí na frente dos outros? Me mata de vergonha! Onde já se viu isso?! E ainda fica falando da minha roupa, maquiagem... Não gosta procura outra! Eu não vou deixar de usar meus saltos e também não vou sair por aí com a cara pálida, parece uma doente. Sem contar que você reclama quando eu faço chapinha. Quer dizer que eu tenho que sair por aí que nem um leão ambulante? E você nem gosta de ler. Com quem eu vou discutir meus livros?! E também não gosta de Harry Potter! E não acredita em extraterrestres! Nem dá pra ter uma discussão emocionante sobre OVNI's contigo, você nem dá ouvidos para as minhas teorias! E você não gosta de ir às festas, não sabe dançar... Parece um velho. Ahh, sei lá... É tanta coisa. Acho melhor a gente dar um tempo. Preciso saber se é isso mesmo que eu quero pra mim. Você é tão estranho, não combina comigo. Não sei. Vamos ver no que isso vai dar. É tão estranho você e eu, eu e você. Não sei explicar como é estranho..."

No dia seguinte, quando ele chegou, a primeira coisa que ela disse foi  preciso falar uma coisa muito importante pra você. Ele logo responde. Humm. O quê? Ela olhou para baixo, mordeu os lábios e depois de uma "pausa dramática" fitou profundamente os olhos dele. Eu te amo, muito. Foi o que ela conseguiu dizer. Ele abriu aquele sorriso só dele, que as bochechas inflam e os olhos somem. E eu te amo bem mais, você sabe disso. E a abraçou.

Shinning Star 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

All Star

Sabe aquelas ligações que não parecem importantes na hora, mas que você nunca mais esquece depois? Passei o dia inteiro pensando naquela. Faz tanto tempo que eu quase nem lembrava. Mas hoje simplesmente lembrei, do nada, sem porquê. Já era tarde quando o celular tocou, mas não me surpreendi quando vi quem era. Atendi. Uma música ao vivo tocava ao fundo, acompanhada de cantos emocionados e desafinados - quase não escutei a voz do Nando. E hoje isso ficou martelando na minha cabeça. Estranho seria se eu não me apaixonasse por você. O sal viria doce para os novos lábios. Colombo procurou as índias, mas a terra avistou em você. O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário. Estranho é gostar tanto do seu All Star azul... Cantei o dia inteiro. Esse contato já não me liga mais. Porém, justamente hoje que eu passei o dia pensando naquela ligação, o meu celular toca e vejo o nome dele na caixa de entrada.

Shinning Star 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Dor

A dor cresceu rápido no peito. Subiu pela garganta e ficou lá entalada até escapar furiosamente em um choro desesperado. Dor tão forte e pesada que as pernas não resistiram e o corpo inteiro desabou no chão. Ela ficou lá, chorando, por um tempo indefinido. Tinha que conter os gritos para que ninguém a ouvisse. O peito a apertava como nunca antes, o ar faltava e o mundo ao redor parecia borrões embaçados de lágrimas, girando e girando. Naquele momento, ela só desejava nunca ter existido, que só houvesse o nada. A pior dor do mundo, o pior medo - ela nunca sentira nada parecido antes. Achou que as lágrimas nunca acabariam; mas acabaram. Talvez porque o corpo tenha seus limites físicos e não tivesse de onde tirá-las mais. E a dor? Ela ficou. Continuou fazendo o seu papel de doer, incomodar e deixá-la tão fraca quanto o possível. Sabe, de um jeito quase morrendo.

Shinning Star 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Céu de verão

Depois de um dia péssimo, tanto para o corpo quanto para a alma, eu olhei o céu pela janela. Meus olhos ainda estavam inchados por causa da dor que escorreu por eles. E o meu peito ainda latejava, junto com o nó apertado na garganta. Vi as estrelas brilhando lá em cima. Fazia tempo que eu não as via tão cintilantes e numerosas. Eu mergulhei naquele céu e viajei nos meus problemas não resolvidos que me fizeram chorar mais cedo. Mas, dessa vez, eu lembrei deles sem chorar. É que eu não poderia chorar com aquele céu tão maravilhoso. As lágrimas me impediriam de ver as estrelas pulsando lá em cima. Reconheci o Cruzeiro do Sul e a constelação de Escorpião. Significa que o verão está por vir; e, junto com ele, dias mais quentes, sorrisos mais quentes, abraços mais quentes. O céu de verão é o mais lindo de todo o ano. Talvez por isso senti essa paz ao olhar para ele. Foi como se os meus problemas se resolvessem naquele momento. Como se a Via Láctea me envolvesse em seus braços nebulosos e me acalmasse, tal como se acalma um bebê. Eu vi uma estrela-cadente. Já tinha visto várias outras, mas essa se destacou. Ela caiu lenta pelo céu, como se esperasse eu olhar para ela e fazer um pedido antes de desaparecer. Mas eu não fiz pedido nenhum. Todos os que eu já havia feito antes não se realizaram. E não foi culpa da estrela. Foi culpa minha, que fiquei sentada esperando eles se realizarem. Assim como eu fiquei esperando meus problemas se solucionassem à base de lágrimas e soluços. Eu sorri e dei uma última olhada nas estrelas - fui resolver meus problemas, fui realizar meus pedidos.

Shinning Star 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Último pôr-do-sol

Vento, areia, cheiro de mar. Viemos ver o pôr-do-sol na beira da praia, como fazemos todos os domingos. Mas esse vai ser diferente. Vai ter um gosto de saudade e lágrimas - salgadas como a água do mar. Sentamos na areia como sempre; ele por trás de mim, com os braços quentes me envolvendo em um abraço protetor. Céu alaranjado, com nuvens tendendo do rosa ao dourado. O sol está se despedindo de maneira espetacular. Quase esqueço do que eu tinha para falar. Tirá-lo da minha vida talvez seja uma das coisas mais difíceis que eu possa vir a fazer. Levanto os olhos e vejo andorinhas no céu. Imagino-o voando junto com elas, para longe de mim. Dói aqui dentro. Imagino minhas manhãs começando com o som do despertador e não com o celular tocando, com ele me dizendo bom dia, amor. Me vejo cheirando minhas roupas antes de colocá-las para lavar e não sentindo o cheiro dele nelas. Sem o gosto do beijo, sem o abraço macio, sem o cheiro dos cabelos. Fico imaginando os "sem's" por uns minutos dolorosos e vejo uma vida futuramente vazia. Mas isso não vai me fazer desistir. Começo a falar, e já soluço antes mesmo de terminar. Ele não entende o porquê de tudo isso. Talvez nem eu entenda. Duas pessoas que se amam não podem se separar por coisas pequenas. Isso parece pequeno, mas talvez não seja. Certas coisas parecem absurdas agora, mas depois fazem muito sentido. Levanto da areia e as lágrimas mal me permitem olhar teus olhos, também cheios delas. Um último abraço, um último beijo, um último eu te amo, um último pôr-do-sol. Caminho para longe de você como quem caminha para a beira de um precipício de olhos fechados - você não quer continuar andando, sabe que vai cair a qualquer momento e que logo não sentirá mais nada. Eu te amo, nunca vou desistir de você!, ele grita às minhas costas, enquanto eu enterro meus pés pesados na areia para cada vez mais distante. E sabe, eu não quero que ele desista de mim nunca, mesmo; porque eu nunca vou desistir dele.

Shinning Star 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Almas perfumadas

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta, ou de sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça, lambuzando o queixo de sorvete, melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro e a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver. Tem gente que tem cheiro de colo de Deus, de banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo, sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel. Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria, recebendo um buquê de carinhos, abraçando um filhote de urso panda, tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração. Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa, do brinquedo que a gente não largava, do acalanto que o silêncio canta, de passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo, corre em outras veias, pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está conosco, juntinho ao nosso lado e a gente ri grande que nem menino arteiro. Tem gente, como você, que nem percebe como tem a alma perfumada! E que esse perfume é dom de Deus.

Ana Cláudia Saldanha Jácomo