Bob ficou confuso. Estava numa caixa escura e tudo sacudia. Parecia estar sendo transportado para algum lugar. Carlinhos, seu dono, estava planejando alguma brincadeira nova? Esperava que fosse; fazia tempo que Carlinhos não brincava com ele. Acelera. Freia. Dobra. Direita. Esquerda. Pára. Acelera. Buzina. Vira. Pára. A viagem demorou. Carlinhos desceu da moto e retirou Bob da caixa. Eles estavam numa avenida movimentada. Pelo tempo da viagem, estavam bem longe de casa. Bob olhou para Carlinhos e esperou a brincadeira começar, com o rabinho abanando de expectativa. Mas não houve brincadeira nenhuma. Carlinhos subiu na moto, mal reparando em seu amigo de anos fitando-o aos seus pés. Acelerou, ganhou velocidade e deixou Bob para trás. Ei! Não me deixa aqui, eu tenho medo! E Bob correu. Disparou pela avenida, insistindo em não abandonar seu melhor amigo. Alcançou a moto, latiu em protesto. Carlinhos o ignorou. A moto ainda ganhava velocidade. Os pulmões do Bob queimaram em protesto, não tendo a mesma potência do motor da moto. E o cãozinho foi parando, vencido pelo cansaço. Ficou parado, olhando o farol traseiro da moto do Carlinhos ficar cada vez mais distante, até sumir em uma esquina. Bob não entendeu muito bem o que houve. Será que o Carlinhos está aborrecido comigo? Ele não chorou, porque cachorros não choram. Mas, vendo o olhar triste que ele lançava ao fim da avenida, tenho certeza que choraria se pudesse. E ficou assim longos minutos, olhando os faróis que passavam e dobravam na esquina que Carlinhos dobrou, sem saber o que fazer. Então ele virou e voltou pelo caminho do qual veio, até o local exato onde Carlinhos o deixara. E esperou o dono voltar, como amigo fiel que era. E, pela sua inocência canina e fieldade, ele tinha certeza que Carlinhos voltaria. Enfrentou chuva, frio, sol. Só saía de lá para revirar o latão de lixo que tinha lá perto. E Carlinhos ainda não tinha voltado. Os cachorros daquele lugar estranho não gostavam muito de Bob. Em uma das brigas ocasionais por disputa de um saco de lixo "fresquinho", Bob correu para o meio da avenida. Um caminhão de carga o atingiu e lançou-lhe bem longe. Ele não morreu de imediato. Enquanto a morte lhe puxava lentamente com suas mãos geladas, ele olhava para a esquina distante onde Carlinhos dobrara dias atrás, talvez meses, ou anos - ele não sabia bem. Seu último pensamento foi a preocupação em desapontar Carlinhos quando este voltasse para buscá-lo e ele não estivesse mais lá. E os olhos do Bob ficaram parados, olhando para a esquina que ele já não via.
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