segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Fieldade

Bob ficou confuso. Estava numa caixa escura e tudo sacudia. Parecia estar sendo transportado para algum lugar. Carlinhos, seu dono, estava planejando alguma brincadeira nova? Esperava que fosse; fazia tempo que Carlinhos não brincava com ele. Acelera. Freia. Dobra. Direita. Esquerda. Pára. Acelera. Buzina. Vira. Pára. A viagem demorou. Carlinhos desceu da moto e retirou Bob da caixa. Eles estavam numa avenida movimentada. Pelo tempo da viagem, estavam bem longe de casa. Bob olhou para Carlinhos e esperou a brincadeira começar, com o rabinho abanando de expectativa. Mas não houve brincadeira nenhuma. Carlinhos subiu na moto, mal reparando em seu amigo de anos fitando-o aos seus pés. Acelerou, ganhou velocidade e deixou Bob para trás. Ei! Não me deixa aqui, eu tenho medo! E Bob correu. Disparou pela avenida, insistindo em não abandonar seu melhor amigo. Alcançou a moto, latiu em protesto. Carlinhos o ignorou. A moto ainda ganhava velocidade. Os pulmões do Bob queimaram em protesto, não tendo a mesma potência do motor da moto. E o cãozinho foi parando, vencido pelo cansaço. Ficou parado, olhando o farol traseiro da moto do Carlinhos ficar cada vez mais distante, até sumir em uma esquina. Bob não entendeu muito bem o que houve. Será que o Carlinhos está aborrecido comigo? Ele não chorou, porque cachorros não choram. Mas, vendo o olhar triste que ele lançava ao fim da avenida, tenho certeza que choraria se pudesse. E ficou assim longos minutos, olhando os faróis que passavam e dobravam na esquina que Carlinhos dobrou, sem saber o que fazer. Então ele virou e voltou pelo caminho do qual veio, até o local exato onde Carlinhos o deixara. E esperou o dono voltar, como amigo fiel que era. E, pela sua inocência canina e fieldade, ele tinha certeza que Carlinhos voltaria. Enfrentou chuva, frio, sol. Só saía de lá para revirar o latão de lixo que tinha lá perto. E Carlinhos ainda não tinha voltado. Os cachorros daquele lugar estranho não gostavam muito de Bob. Em uma das brigas ocasionais por disputa de um saco de lixo "fresquinho", Bob correu para o meio da avenida. Um caminhão de carga o atingiu e lançou-lhe bem longe. Ele não morreu de imediato. Enquanto a morte lhe puxava lentamente com suas mãos geladas, ele olhava para a esquina distante onde Carlinhos dobrara dias atrás, talvez meses, ou anos - ele não sabia bem. Seu último pensamento foi a preocupação em desapontar Carlinhos quando este voltasse para buscá-lo e ele não estivesse mais lá. E os olhos do Bob ficaram parados, olhando para a esquina que ele já não via.


Shinning Star 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Retrato de dentro


Ela tem um sorriso de dentes certos e lábios rosados, quase carnudos. Pele branca, bochechas levemente rúbeas. Cabelos lisos e castanhos, caindo até o busto avantajado e bem desenhado. Ela tem um olhar um pouco cor-de-mel, um pouco verde-musgo; depende do sol. Um olhar do tipo que se você mirar por muito tempo acabará sendo puxado por ele - olhos de ressaca. Ela sempre fica em dúvida entre pintar as unhas de vermelho ou fazer francesinha. É que, dependendo do contexto, ela precisa ser fatal ou delicada. Ela tem todos os tipos de sentimentos dentro dela. Ou ela sente muito, ou não sente nada. E quase sempre não sabe por quem ela sente mais. Sonhadora demais; ela tem um mundo de fantasias e uma lista de objetivos. Mas é preguiçosa. Sempre oscilando entre menina e mulher. Cheia de defeitos, a única coisa que gostaria de mudar em si seria o coração; bondoso demais, sensível demais, grande demais, realista de menos. Ela sempre fica na defensiva e não demonstra que tem sentimentos, porque tem medo que descubram que eles se debatem no coração dela feito leões ferozes. Ela se recusa a admitir um sentimento até o último segundo, quando percebe que a pessoa que ela ama realmente vale a pena. Já perdeu muitos amores verdadeiros assim, fazendo-os esperar demais.  Criou uma barreira em torno dela, uma barreira de paus e pedras - e veneno - para proteger a alma sensível que ela tem. Por isso que ela parece durona, às vezes. É para se defender daqueles que querem entrar em seu coração só para machucá-lo. Ela é do tipo que te bate quando quer te abraçar. Se ela gosta de você, não consegue olhar nos seus olhos sem abaixar a cabeça, corar e esconder um risinho. Ela cuida das suas amizades como quem cuida dos próprios filhos; sempre se preocupando, advertindo, ajudando e se alegrando com cada sorriso de felicidade que desponta no rosto de cada um. Ela gosta de ser bajulada, mas nem pensa em correr atrás; é o orgulho em pessoa. Vive em TPM constante e, vez ou outra, desconta em alguma vítima indefesa. Ela tem a síndrome do "será-que-tem-alguém-entranho-comigo?". Está sempre analisando seu comportamento, desde seu olhar até sua respiração, para detectar qualquer mínimo detalhe que possa significar que você está chateado, mentindo, sendo irônico, aborrecido, conspirando, pensando em outra. Se ela estiver certa em algum desentendimento não considera a opção de pedir desculpas apenas para se entender com um amigo e tudo ficar bem - o orgulho de novo. E ela tem medo. Medo de tentar, de perder as pessoas que ama, de não realizar seus sonhos, de sofrer, de deixar as oportunidades passarem, de escolher errado... Mas, acima de tudo, ela tem medo de ficar sozinha, mesmo que seja orgulhosa demais para mostrar que precisa de você.

Shinning Star 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Do outro lado da tarde



Sim, deve ter havido uma primeira vez, embora eu não lembre dela, assim como não lembro das outras vezes, também primeiras, logo depois dessa em que nos encontramos completamente despreparados para esse encontro. E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você. Certamente houve, porque tenho a vaga lembrança - e todas as lembranças são vagas, agora -, houve um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo em que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Depois, aquela primeira vez e logo após outras e mais outras, tudo nos conduzindo apenas para aquele momento. Às vezes me espanto e me pergunto como pudemos a tal ponto mergulhar naquilo que estava acontecendo, sem a menor tentativa de resistência. Não porque aquilo fosse terrível, ou porque nos marcasse profundamente ou nos dilacerasse - e talvez tenha sido terrível, sim, é possível, talvez tenha nos marcado profundamente ou nos dilacerado - a verdade é que ainda hesito em dar um nome àquilo que ficou, depois de tudo. Porque alguma coisa ficou. E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante. Porque não se vive mais em lugares onde existam rodas-gigantes. Porque também as rodas-gigantes talvez nem existam mais. Mas foram essas duas coisas - a chuva e a roda-gigante -, foram essas duas coisas que de repente fizeram com que algum mecanismo se desarticulasse dentro de mim para que eu não conseguisse ultrapassar aquele momento. De repente, eu não consegui ir adiante. E precisava: sempre se precisa ir além de qualquer palavra ou de qualquer gesto. Mas de repente não havia depois: eu estava parado à beira da janela enquanto lembranças obscuras começavam a se desenrolar. Era dessas lembranças que eu queria te dizer. Tentei organizá-las, imaginando que construindo uma organização conseguisse, de certa forma, amenizar o que acontecia, e que eu não sabia se terminaria amargamente - tentei organizá-las para evitar o amargo, digamos assim. Então tentei dar uma ordem cronológica aos fatos: primeiro, quando e como nos conhecemos - logo a seguir, a maneira como esse conhecimento se desenrolou até chegar no ponto em que eu queria, e que era o fim, embora até hoje eu me pergunte se foi realmente um fim. Mas não consegui. Não era possível organizar aqueles fatos, assim como não era possível evitar por mais tempo uma onda que crescia, barrando todos os outros gestos e todos os outros pensamentos. Durante todo o tempo em que pensei, sabia apenas que você vinha todas as tardes, antes. Era tão natural você vir que eu nem sequer esperava ou construía pequenas surpresas para te receber. Não construía nada - sabia o tempo todo disso -, assim como sabia que você vinha completamente em branco para qualquer palavra que fosse dita ou qualquer ato que fosse feito. E muitas vezes, nada era dito ou feito, e nós não nos frustrávamos porque não esperávamos mesmo, realmente, nada. Disso eu sabia o tempo todo. E era sempre de tarde quando nos encontrávamos. Até aquela vez que fomos ao parque de diversões, e também disso eu lembro difusamente. O pensamento só começa a tornar-se claro quando subimos na roda-gigante: desde a infância que não andávamos de roda-gigante. Tanto tempo, suponho, que chegamos a comprar pipocas ou coisas assim. Éramos só nós depois na roda gigante. Você tinha medo: quando chegávamos lá em cima, você tinha um medo engraçado e subitamente agarrava meu braço como se eu não estivesse tão desamparado quanto você. Conversávamos pouco, ou não conversávamos nada - pelo menos antes disso nenhuma frase minha ou sua ficou: bastavam coisas assim como o seu medo ou o meu medo, o meu braço ou o seu braço. Coisas assim. Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou. Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram - e a roda-gigante parou. Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado. Esperamos. Acho que comemos pipocas enquanto esperamos. Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse. Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas. Não sei se chegamos a nos abraçar, mas sei que falamos. Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar. E nós tínhamos tão pouca experiência disso que falamos e falamos durante muito e muito tempo, e entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava, ou eu disse que te amava - ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas, bobas, insignificantes. Porque nada modificaria os nossos roteiros. Talvez você tenha me chamado de fatalista, porque eu disse todas as coisas, assim como acredito que você tenha dito todas as coisas - ou pelo menos as que tínhamos no momento. Depois de não sei quanto tempo, as luzes se acenderam, a roda-gigante concluiu a volta e um homem abriu um portãozinho de ferro para que saíssemos. Lembro tão bem, e é tão fácil lembrar: a mão do homem abrindo o portãozinho de ferro para que nós saíssemos. Depois eu vi o seu cabelo molhado, e ao mesmo tempo você viu o meu cabelo molhado, e ao mesmo tempo ainda dissemos um para o outro que precisávamos ter muito cuidado com cabelos molhados, e pensamos vagamente em secá-los, mas continuava a chover. Estávamos tão molhados que era absurdo pensar em sairmos da chuva. Às vezes, penso se não cheguei a estender uma das mãos para afastar o cabelo molhado da sua testa, mas depois acho que não cheguei a fazer nenhum movimento, embora talvez tenha pensado. Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou você foi embora. Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante - seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou.

Caio Fernando de Abreu

terça-feira, 19 de julho de 2011

Amor de verão

Pôr-do-sol mais que perfeito. Cheiro do mar, gosto do mar, som do mar. Deitados na areia ainda molhada, estavam procurando a primeira estrela da noite; em meio a nuvens de algodão-doce rosa. Aos poucos, o céu foi ficando pontilhado, cintilante. A lua apareceu no horizonte, sorridente e maliciosa. Conheceram-se naquela praia mesmo, no mesmo verão. Se olharam e surgiu aquele magnetismo. O que um sentia pelo outro não era amor, talvez nem paixão - ainda. Era vontade de ficar junto, gostar de estar perto. E eles passaram a noite assim. Pularam ondas, rolaram na areia, cataram conchinhas, fizeram castelos de areia. E se amaram. Beijo com areia, salgado, com vontade. Um pouco antes do amanhecer eles viram uma estrela cadente. Cada um fez, secretamente, um pedido: ela pediu um amor verdadeiro e ele queria a felicidade plena - não muito longe de serem realizados. Eles viram o sol despontar no leste, manchando o oceano de vermelho. Andaram na beira do mar, com os pés na espuma salgada e afundando na areia. Trocaram o número de telefone e se despediram. Rumos distintos. As férias acabaram com gosto diferente. A vida não voltou a ser tão normal. Ele sempre comparava as moças que encontrava por aí com ela. Ela sempre pensava nele quando repousava a cabeça no travesseiro. Mas não mantiveram contato. Foi só um amor de verão. Agora, tão longe um do outro, melhor não se apegar. Essas paixõezinhas duram enquanto durarem as férias, a curtição. Tudo efêmero. Mas dessa vez foi diferente. Foi como as ondas do mar. Elas te levam, te arrastam para longe. Mas te trazem de volta, te puxam para o lugar onde você estava. E nem sempre você é forte o bastante para resistir. Amores de verão não são assim. No verão seguinte, um ainda marcava presença na memória do outro. Voltaram para a mesma praia, no mesmo dia - não coincidentemente. Olhar atento, na procura secreta daquele rosto quase esquecido de um verão atrás. E quando aqueles olhos se encontraram foi revelador. Ela descobriu que era ele o amor verdadeiro que ela procurava. E ele percebeu que estava nela a felicidade que ele queria. Estrela cadente mais que competente na realização de pedidos. Um sorriso, um abraço, um beijo, um sentimento. Combinaram-se como o azul do mar combina com o azul do céu. E começaram um novo amor de verão, outono, inverno, primavera.

Shinning Star 

sábado, 2 de julho de 2011

Tardes de julho

Sinto falta do barulho do vento nas folhas daquela árvore enorme, no jardim da minha avó. Deitada na grama, eu contava as folhas secas que caíam, dançando. Céu azul vibrante. Via mil e um desenhos diferentes nas nuvens. O brilho metálico dos beija-flores enfeitava o jardim, juntamente com as flores que eles beijavam. Eu gostava do aroma de café preto que invadia o ambiente; a vizinha fazia todas as tardes. Contava as pipas no céu, elas sempre estavam por lá nessa época do ano. As tardes eram quentes, mas com um vento que trazia consigo toda a paz que eu poderia precisar. E eu ficava assim, pensando na vida, até as primeiras estrelas cintilarem lá em cima. Agora aquela árvore não está mais lá. Não tem mais grama, nem sombra, nem folhas caindo. Eu não reparo mais no desenho das nuvens. Não tenho tempo de contar quantas pipas brincam no céu azul. Nem sei se a vizinha ainda faz café preto às tardes. Quantos anos eu tinha? Sete. Nove, talvez. Tudo parece tão simples, mas eu queria muito ter isso de novo. Mas o tempo não volta; o que volta é a vontade de voltar no tempo.

Shinning Star